A meditação e a música

A meditação é um processo de interiorização, onde não pode haver nenhum bloqueio mental. Quando falo em bloqueio mental pode gerar uma certa confusão, porque as pessoas podem pensar que não há pensamento na altura em que possa provocar um bloqueio mental. Não é a isso que me refiro.

Para nós estarmos completamente abertos a uma meditação, que vá exercer uma influência directa no consciente, nós temos que estar na condição de absolutamente limpos em questão de conceitos.

Reparem: uma pessoa, normalmente, não se abre, vive fechada dentro das suas ideias, dos seus conceitos. Uma pessoa pode aceitar o yoga sob um determinado aspecto e não o aceitar sob outro aspecto; uma pessoa que aceita o Vedanta, o Hinduismo, o Cristianismo, mas não aceita o Espiritismo, que rejeita qualquer coisa, encontra dentro de si bloqueios internos;  nunca vai conseguir uma imobilização total ao nível de pensamento, porque as emoções referentes a qualquer linha não se encontram na área do pensamento, encontra-se gravada no Corpo Astral e Mental das pessoas.

Portanto, nós podemos chegar a adquirir uma certa imobilização no pensamento, mas tirarmos daí pouco proveito. Porque existe um bloqueamento que não dá a possibilidade de tocar conscientemente o plano Búdico, tocar os “pés do Nirvana”.  É tudo muito mais subtil. Por isso é que existe a teoria.

Porque é que existe a teoria, porque é que existem os Grupos, porque é que as pessoas se juntam a falar e cada um não recebe as suas técnicas e não vai para casa meditar? É porque existe uma necessidade de se criar um desbloqueamento interno e mental, de forma a colocar a pessoa nessa disposição, tanto consciente como inconsciente.

Até criarmos a condição de estarmos abertos a tudo, sem conflitos provocados pela rejeição de seja o que for, até lá temos que ir aos poucos aceitando todas as coisas e vamos meditando e vamos imobilizando os nossos pensamentos para nos focalizarmos cada vez mais no ponto em que a meditação acontece. E assim nos vamos exercitando para atingir a imobilidade total.

Existem 2 tipos de imobilidade: a física e a mental. A física depende directamente da mental. Embora possamos estar fisicamente imóveis enquanto estamos mentalmente em grande movimento;  se estivermos imóveis mentalmente estaremos forçosamente imóveis fisicamente.

Outra coisa que pode criar bloqueios nas pessoas é um ritual; há pessoas que não são capazes de suportar um ritual. E às vezes o ritual tem mesmo a função de desestabilizar os conceitos das pessoa. Há pessoas que se julgam muito espirituais, mas se tiverem que assistir a um ritual, um Puja, uma oferenda, isso provoca-lhe conflitos. A pessoa começa a rejeitar interiormente o ritual logo no inicio e quando chega a meio já não aguenta mais, mesmo ao nível físico e tem que sair. Porque acha que é um primitivismo, que é desnecessário, etc. E isto representa um bloqueio. Portanto nós devemos estar sempre na disposição de aceitar que haja ou não haja um ritual

BHAKTI  YOGA

O BHAKTI YOGA tira mais proveito do ritual; mas o RAJA YOGA também tira proveito do ritual, embora menor, se estiver receptiva à vibração. Pois há uma vibração muito forte à volta das pessoas que são BHAKTI YOGA. E para estar receptivo à vibração do Amor Devocional, não basta estar presente sem conflito, também é necessário estar imóvel.

Não é estar estático, com tensão; é numa imobilidade natural de quem está atento, consciente e interiorizado. Não é necessário fazer esforço, porque se houver esforço haverá necessariamente bloqueios de ordem física. Conforme se vai criando a imobilidade mental, aos poucos vai-se adquirindo a imobilidade física natural, na meditação. E o corpo vai-se endireitando lentamente para a posição anatómica correcta; o pescoço pode ficar rígido, mas está relaxado. O corpo está extático, mas sem tensão, relaxado. Esse é um dos segredos (o menor) da meditação.

Quando nos concentramos num mantra, ou um Mestre, isso vai provocar uma certa vibração no Corpo Mental, depois no Astral e depois no Corpo Físico.

E ai poderemos apercebermo-nos dessa vibração a nível físico. E quanto mais praticarmos, mais rápido vai acontecer que essa vibração venha do Corpo Búdico e mais tarde do Nirvanico.

Ora quando nós conseguimos aperceber da vibração no Corpo Físico, vibração essa provocada pela concentração no mantra, ou num Mestre, a nossa concentração aumenta e a imobilidade mental está ai. Daí o facto de haver várias escolas que só dão mantras. Não fazem mais nada.

Nós aqui ainda temos a possibilidade de ir tirando mel de várias flores, isto é de várias escolas. Porque funcionamos de um modo aberto e progressivo vão tendo a possibilidade de poder ter conhecimentos mais profundos de várias escolas, o que não é fácil encontrar, nem no nosso país nem no estrangeiro.

Mas, como eu ia dizendo, se tivermos uma postura mais direita, nós temos pensamentos mais lentos, não são tão complicados nem violentos como os que podemos ter se estivermos em postura incorrecta.

Estáticos, em meditação, podemos obter tudo!

E atenção: sempre que se concentrarem no mantra, tenham sempre como objectivo apanhar essa vibração que é provocada no corpo físico, porque então é fácil estar imóvel. É preciso apanhar essa vibração. Mas para a apanhar é preciso não haver rejeições, incompreensões, bloqueios. Devemos estar limpos. Por isso é que encontramos em várias escolas espiritualistas pessoas que não se modificam internamente, porque o que vão aprendendo vai criando uma camada mental em cima do que já lá existia previamente, enchendo e armazenando e tapando, de modo que a pessoa resulta num ser cada vez mais falso. Não é ela própria. Não é o ser Integral, liberto. Dizendo coisas que não pratica, numa hipocrisia continua que só engana quem? A pessoa assim está cada vez mais recalcada. E se a pessoa sair dessa escola e for para outra, que seja verdadeiramente e profundamente espiritualista, tudo isso tem que vir cá para fora e, aí, naturalmente surge o conflito, o sofrimento pela desestabilização dessas camadas inúteis que encobrem o verdadeiro Ser.

E quando isso acontece é bom! É porque a pessoa está a limpar-se, como que numa espécie de purga, para continuar a evoluir, mas agora mais rapidamente, mais em verdade. E o verdadeiro Eu surge em toda a sua plenitude.

Então podem acontecer as experiências profundas e a pessoa muda completamente. Mas isso não depende inteiramente de quem ensina, depende mais da humildade e da entrega da própria pessoa ao novo ensinamento; e da maneira como essa pessoa tenta aplicar no seu dia-a-dia esses ensinamentos, práticos, que adquiriu.

Nós nada sabemos desta vida, desta vida aqui, física. E podemos aprender a viver duma maneira integral.

Geralmente as pessoas fazem da sua vida um inferno, quando podem fazer dela um céu. É só uma questão de nós aceitarmos humildemente o que nos é dito. De outro modo é melhor pararmos e não fazermos nada. Porque ou se faz com verdadeira entrega ou não se faz.

Pode-se ir protelando durante algum tempo essa entrega, mas surge um dia em que isso não é mais possível. Aqueles que pensam que podem estar toda a vida com um pé dentro e outro fora tomem consciência de que isso não resulta, porque uma vez iniciada a busca da auto-realização ela não pode ser adiada indefinidamente. E quando essa pessoa põe os dois pés “dentro” é maravilhoso. Porque só podem acontecer duas coisas: ou a pessoa sai ou entra com os dois pés.

Mas é fatal que um dia ela vai ter que por os dois pés “dentro”. Não porque seja provocado por nós ou pelas pessoas. Não! É que aquilo que vai sendo acumulado não é uma modificação real e em qualquer altura vai ter que rebentar. É como a gente estar a meter sempre coisas no saco, até que chega uma altura em que ele rebenta. E nessa altura, tudo está mal na própria pessoa e nos outros à sua volta, porque nós vemos o exterior de acordo com o nosso interior. Se nós estivermos bem por dentro, o exterior também vai estar bem. Porque ninguém quer fazer mal a ninguém dentro do grupo. Tudo isto acontece porque “andamos numa mente desgraçada” e temos que nos esforçar muito para a conhecermos; e isso dói! Mas é necessário ultrapassar essa fase e então a mente será muito mais útil, será o nosso melhor aliado, que nos vai deixar usufruir tudo duma maneira correcta. Porque a mente tanto pode funcionar como “má “como a coisa mais maravilhosa. É preciso compreender estes paradoxos da mente.

E o paradoxo da mente é o paradoxo do ser humano; é o paradoxo da vida. Por isso muitas pessoas podem chorar de alegria. E outras podem cantar de tristeza. Aliás, a música tem um efeito muito especial

Música

A música sempre teve um relacionamento muito profundo com o que vai dentro de nós, no mais profundo do Ser, que é a Espiritualidade. Todos os músicos e todas as pessoas que vibram profundamente com a música são pessoas muito sensíveis; são pessoas que canalizam a sua sensibilidade através da música.

Os artistas, os poetas, os escritores, os músicos são indivíduos com muita sensibilidade, que descobrem um escape para a sua personalidade se manifestar, para o seu eu se manifestar. Por vezes eles declaram: “Isto que eu fiz é aquilo que eu desejava fazer, mas é aquilo que eu não posso ser”. Porque as suas obras são manifestações dos seus sonhos, da sua imaginação, daquilo que sentem ou pressentem, mas não daquilo que eles próprios são. Constatamos isto muitas vezes.

Eis um exemplo

“Eu gostava de escrever uma canção
Que fosse tão vibrante e intima
Que a terra a adoptaria
Como se ela tivesse jorrado como uma fonte

Da memória da Terra
Como se ninguém a tivesse escrito
Mas sim a própria vida.
E a minha canção voaria

Do pássaro para a asa, para a árvore
Para a cinza, para o coração, para a respiração, para a canção.
Porque a canção não pertence a ninguém, tal como a fonte!”

Este poema pertence a uma canção que eu ouvi há pouco tempo e demonstra bem a sensibilidade de quem a compôs.

O que é isto senão uma tentativa da sua personalidade para se escapar para ir para outros mundos?

Os músicos, os escritores são indivíduos que encontraram uma fuga, um escape para a sua sensibilidade. E ela pode manifestar-se em vários aspectos: na literatura, na música, na pintura, etc. Mas está relacionada com algo de eterno, com algo de profundo, com algo de Divino. Só que a pessoa não tem consciência disso.

A música sempre existiu e sempre há -de existir. Ela tanto existe nos aparelhos (através deles), como existe dentro de nós. Quando nós pomos a tocar uma música suave ou barulhenta, as pessoas têm reacções diferentes, ligadas com o seu interior. Sempre. Ou porque provoca estados catárticos, exteriorizantes ou estados passageiros de beatitude.

Quando nós pomos música aqui a tocar, é como um chamamento. Não é para que as pessoas meditem melhor. Não! Porque se uma pessoa está em meditação ou concentração está num processo interiorizante, numa alquimia interna, e o ruído pode tirá-la desse estado. Portanto, a música aqui não tem a função de fazer com que meditemos melhor.

A música é apenas um convite à interiorização, ao relaxamento. Se o quizermos fazer, podemos pôr musica a tocar antes da meditação, para nos chamar para dentro, para criar um ambiente, uma vibração boa, ou para que se manifeste em nós aquele desejo interno de inocência. Porque a música toca “cá dentro de nós”.

Assim a pessoa fica menos resistente, mais aberta, mais vulnerável. E é nesse ponto que se deve iniciar a meditação interna. Mas aí então a música pára, porque já não nos vai ajudar. Agora precisamos de caminhar pelas nossas próprias pernas.

Até porque se cria um hábito: é que depois as pessoas não conseguem meditar se não tiverem música. E isso é um erro. Porque, mais tarde a pessoa deve conseguir meditar em qualquer lado e em qualquer circunstância. Por isso considerem a música uma facilidade concedida apenas no inicio da caminhada.

Porque reparem: se nós tivermos uma boa experiência numa meditação e a seguir pusermos uma música a tocar ela torna-se incomoda para os nossos ouvidos, porque nos está a chamar para o exterior, quando nós estávamos tão bem no “interior”. Sentimos que ela é um pouco rude em relação àquela vibração que estivemos (ou estamos ainda) a sentir, porque estamos a viver num estado de consciência diferente, que nada tem que ver com o exterior nem com a música, por mais bela que ela seja.

Portanto, enquanto nós estivermos “na música” não estamos verdadeiramente a meditar. Ela é apenas um convite, mas não é a festa.

Também é um facto que as pessoas muito treinadas em meditação atingem um ponto tal de concentração que nada exterior as pode perturbar, mesmo que à sua volta esteja a tocar um grupo “Punk”. Mas isso é um estado a atingir.

Portanto, se nós estivermos concentrados na música, não passamos dessa vibração. O estado de consciência que é suposto atingir pela meditação não é compatível com a música, seja ela qual for, mesmo que seja muito subtil, porque não deixa de ser uma manifestação externa. Um ruído, pode ser bonito ou feio, mas é sempre externo a nós.

Os estados elevados de consciência não têm nada que ver com o veículo externo, têm que ver com algo mais interno. Embora tudo seja vibração e, por consequência, som, são coisas incompatíveis.

O som da vida diz respeito a um estado da matéria. É matéria que foi posta a vibrar numa determinada frequência. Pode ser muito linda ou muito feia para nós. Mas essa frequência é inalterável e não tem que ser bonita nem feia, porque é ela mesma.

E aquilo que eu aconselho no fim da meditação é uma música para ser cantada (não escutada), para nós podermos manifestar externamente os sentimentos que nos vão cá dentro. Essa é que deve ser a música final.

A primeira música é um convite à interiorização. A segunda é o resultado dessa interiorização. E a terceira é a manifestação dessa interiorização. Cada um manifesta-a como quiser e souber e puder. Mas cada pessoa deve estar em condições de poder manifestar de todas as maneiras possíveis: cantando ao seu Mestre, ou oferecendo-lhe o seu estado de consciência ou simplesmente dançando.

Existem 3 tipos de música:

1º é a música normal

2º é a meditação

3º é a canção

E é assim! A música faz parte da nossa essência, da essência Divina. Tocar música e cantar é glorificar a Deus aquilo que Ele nos deu: a Vida – vibração que não é possível imitar, nem recriar. Os sons sempre existiram antes de nós.

E devemos lembrar que sempre que existe música, existe movimento. Quando tocamos e cantamos música devocional o nosso coração vai crescendo, o amor vai crescendo. E se nós formos sempre compartilhando esse amor ele torna-se um movimento contínuo, nós transcendemo-nos e somos felizes.

E aí a nossa mente incomoda muito pouco. Por isso muita gente refugia-se na música para esquecer a própria mente. Mas falta qualquer coisa. Falta o movimento. O corpo deve libertar-se ao som da música; então seremos bailarinos criativos. Não será um bailado, estudado coreograficamente, como acontece com os bailarinos profissionais. Aí o bailarino pouco pode criar. Não é ele que dança, mas sim só o seu corpo é que está dançando.

O que é necessário é sentirmos a música dentro de nós então a dança acontece espontânea; nós deixamos de existir; o bailarino desaparece e a música torna-se dança e movimento. É o bailado integral, porque o corpo e a mente desaparecem na música. Só a música existe no movimento. Os  bailarinos vulgares estão fragmentados, porque não estão em ponto nenhum de libertação. Eles estão lá por partes, sempre.

Se nós entramos dentro da água, ocupamos um determinado espaço dentro dessa água. E se começarmos a fazer movimentos lentos dentro da água reparamos que o nosso corpo move-se com maior beleza, move-se criando figuras dentro da própria água; e se nós nos abandonarmos a própria água toma conta de nós e o nosso corpo assume um bailado próprio da água e nós sentimo-nos bem, livres, refrescados. Sentimo-nos óptimos.

Se nos entregarmos à própria natureza da água ou do vento temos uma maravilhosa sensação de liberdade. Nós lutamos sempre contra o vento; mas experimentem senti-lo a passar na cara, no cabelo, nos braços, deixem-se ir com o vento. É maravilhoso correr com o vento (não contra ele).

Existem tantas coisas maravilhosas que podem ser aproveitadas, mas que, infelizmente as pessoas tentam combater, em vez de as aceitar e colaborar com elas.

A entrega à Natureza proporciona um ajustamento do Homem ao local onde vive.