Este texto trata da revisão/reinterpretação do sonho a que vamos chamar - A Torre de Babel. Digo reinterpretação porque os anos de vida a isso conduzem, a uma síntese global de aprendizado nunca acabado.
A Torre de Babel, segundo a narrativa bíblica no Gênesis, foi uma torre construída por um povo com o objectivo que o cume chegasse ao céu, para chegarem a Deus e estarem mais perto dele. A localização desta construção teria sido na antiga Mesopotâmia. A torre terá caído por terra, provocando a confusão das línguas.
Mas na interpretação do sonho que se segue, ela existe e é percorrida por todos.
Os sonhos são uma das expressões do eixo Ego - Eu Superior. Todo o sonho pode ser considerado uma carta enviada para nos despertar. Quando se diz Ego, diz-se personagem que somos na encarnação actual e síntese das anteriores, mais ou menos homogéneas e despertas. E quando se diz Eu Superior, referimos Deus em nós, a Centelha Divina. O objectivo da vida é estreitar a distância entre o ego e o eu superior.
A vida durante os sonhos é mais importante do que, à primeira vista, pensamos. Primeiro, porque, através dela, o subconsciente desbloqueia-se de tudo aquilo que fica reprimido durante o dia. Um segundo motivo para prestarmos atenção aos sonhos é que eles não só desbloqueiam, mas também equilibram nossa vida consciente. Um outro motivo é que os sonhos podem colocar-nos em contacto com níveis mais elevados do nosso ser. Ainda outro motivo para darmos atenção aos sonhos é que eles podem revelar que não existe separação entre as pessoas e o universo.
Ao começar a estudar os sonhos, convém que se tenha cuidado para não adquirir ideias fixas sobre seus significados. ainda que duas pessoas sonhem a mesma coisa, a interpretação pode ser diferente para cada uma delas.
O drama do sonho tem lugar um pouco acima do meio da torre sagrada, no exterior, a subir, olha para baixo, vê pó, areia, o deserto, pessoas que caminham na direcção da torre, outros sobem nos patamares inferiores, não é possível ver para cima. Entra numa porta, os olhos adaptam-se ao escuro e fresco, uma luz emana de cima e no centro do compartimento, à sua frente tem Jesus Cristo, vestido de lilás, como no Senhor dos Passos. Aponta para baixo, há duas passadeiras de tábua, uma junto a Jesus (para onde Ele aponta), a outra mais afastada, só uma pode ser escolhida e é a certa para passar sem perigo. Muita ansiedade, sai para o exterior, volta a entrar e... Jesus já não está e as passadeiras desapareceram. Saí caminha pelo exterior, o sol aquece em demasia, é penoso.
Esse sonho teve um forte impacto sobre o sonhador pela total retenção na memória, da cor, da nitidez das formas, da sequência das cenas, do viver das sensações e ansiedade associada ao desafio colocado pelo Eu Superior, ali representado pelo Mestre jesus.
Inicialmente fica a angústia de não ter superado ou aceite o desafio, e a lembrança reconfortante da presença divina. Segundo esta reinterpretação é como se o sonho provoque um eco na memória, que auxilia a alma a relembrar a sua origem celeste e o caminho para casa.
Esta torre tem a forma cónica, como podemos ver nas pinturas de Pieter Brueghel e Gustave Doré. Da base mais larga até ao topo estrito, está definido o caminho do homem até aos "Portões de Deus".

Os patamares estão interligados entre si, sem interrupção, como se se tratasse de uma grande mola em espiral, desde a matéria, a paixão e sentimentos, a mente inferior e superior, a imaginação, a intuição, a vontade, e finalmente o mundo da transcendência.
Há dois caminhos ascencionais, o exterior e o interior.
O caminho exterior é o mais comum e seguro e o mais lento, corresponde ao viver a vida em comunidade, em família, em partilha com os outros, e implica saborear a vida, estudar, trabalhar, viver o nosso Ego/Ego(s) que procura por tentativas de aproximação e afastamento o Eu Superior.
O caminho interno, é solitário, mais rápido e corresponde ao caminho dos Santos.
Ambos existem sempre, mas só a partir de um nível mais elevado da torre passam as pessoas a equacionar essa escolha e a via interna.
O roxo (magenta e azul) da veste divina reporta a sensação de tristeza e morte do Ego, mas também significa prosperidade, respeito, nobreza por proximidade ao Alto, e protecção psíquica.
A luz que emana de cima representa a consciência total que se alcança no topo da torre. Todos os povos têm mitos da criação da consciência, que a descrevem como luz. Esses mitos também se referem à criação do ego, que é a manifestação da luz na matéria, nascida das trevas do inconsciente, e o regresso pleno e consciente.
As duas passadeiras reflectem a dualidade do ser que deve ser ultrapassada. No Evangelho de Tomé, Jesus diz "Os homens na verdade acreditam que eu vim para trazer paz à terra. Mas eles não sabem que eu vim para trazer a discórdia (consciência da dualidade) ... e elas serão levadas à solidão". Trata-se de atingir a condição solitária, isto é, individual e autónoma. Primeiro a separação/dualidade é experimentada como conflito, com ansiedade, com a maturação, o seguir Cristo, é realizar conscientemente o próprio padrão particular de totalidade de cada pessoa (torna -se um Deus autónomo).
A tentativa de imitar Cristo de forma literal e específica constitui um erro de raciocínio concreto na compreensão de um símbolo/sonho. Vista simbolicamente, a vida de Cristo é um paradigma que deve ser entendido no contexto pessoal de sua próprio realidade exclusiva e não a imitar de modo servil.
Paz e Prosperidade para todos os Seres da Criação.